Ana Paula Oliveira

Uberaba, MG, 1969. – Vive e trabalha em São Paulo, SP.
Representada pela Galeria Marcelo Guarnieri.
Indicada ao PIPA 2010 e 2014.
Vencedora do PIPA Online 2010.

A trajetória de Ana Paula Oliveira é pautada pela criação de instalações que nascem a partir da tensão entre atração e repulsa e entre estabilidade e desequilíbrio. Seu trabalho lida com questões na ocupação do espaço, instalações que cria e estabelece tensões para acionar o espaço. O resultado visual causa uma mescla de estranhamento e interesse, que sempre desperta o olhar e a aproximação.

Em 2001, a artista faz sua primeira individual, na Capela do Morumbi. Em 2002 recebe o prêmio aquisição do Centro Cultural São Paulo – CCSP, onde faz uma individual e uma coletiva. Em 2020 realiza mostra individual no MAM -Rio.

Nota sobre as obras da artista na coleção: Em 2010 Ana Paula Oliveira foi a primeira vencedora do PIPA Online. Naquela edição não havia doação de obra para o Instituto para o vencedor da categoria. Em 2017, Ana Paula Oliveira ofereceu para a coleção do Instituto o livro-objeto “Vouindo”,2016, resultado do Prêmio Edital Proac 2016 que foi contemplada. Por vários anos, o Instituto conversou com Ana Paula sobre aquisição de outras obras, o que se concretizou em 2020.

PIPA de perto: a artista fala na coleção do Instituto

Confira abaixo o relato que a artista enviou especialmente para o PIPA de perto em que compartilha reflexões sobre seus processos criativos, referências e inspirações, e sobre os estranhamentos que compõe as obras. Ana Paula falou dos 4 trabalhos adquiridos pelo Instituto PIPA, com especial destaque para ambos “da série Vistaña” (2013 e 2016) e “Porninho”:

“Embora acredite que quem fala é o trabalho em si, é importante também expôr minha reflexão deste fazer, desta experiência, que virou arte. São 4 trabalhos que realizei ao longo de mais de década, e é muito interessante entender o raciocínio através deste lugar também.

A linguagem do cinema, da literatura, as estruturas de narração, seja visual ou escrita, me animam a trabalhar. Adoro ouvir cineastas conversarem: dia destes peguei uma conversa de Tarkovski (que sou enfeitiçada) com o Kurosawa, que me toca a alma. Essas conversas são genuínas demais. Quando assisto um filme ou revejo é incrível, sempre surge algo novo para reflexão, uma nova sensação… É um exercício. Vem daí meus caminhos de pesquisa e estudo, minhas fontes de interesse que muitas vezes desencadeiam idéias e até trabalhos.

Este conjunto de obras que agora compõem o acervo do PIPA foi realizado ao longo de 12, 13 anos (é muito curioso como o tempo passa). E depois percebi que o que desencadeou foi um conto do livro ‘Três contos’, de Gustave Flaubert. Os três textos são belíssimos, mas o ‘Um coração simples’ me chamou.

A partir disso, fiz meu primeiro trabalho com taxidermia: duas placas de vidro incrustadas no chão e um periquito alçando voo ou segurando as placas. Aprendo muito com essa técnica, que me aponta para outros trabalhos e outras questões. Taxidermia é estranho, e isso me instiga. Outra coisa que agora percebo é que talvez eu seja dos trabalhos em série – a tiragem para mim é estranha. Não consigo fazer tiragem. Para mim cada trabalho é um e, quando se reúnem em torno de um assunto, nomeio como série: quando rondam, se ligam e se entendem na própria poética. Em 2010 foi um dos primeiros, barra de ferro e pássaro, daí vem os com vidro, corte a laser e ninho metalizado da série ‘Porninho’, e então ‘Vistaña’ – vidros com corte a laser e pássaro taxidermizado.

O curioso é que a taxidermia era algo distante e até me causava repulsa, mas o trabalho me perseguiu e então me animei. Depois de algum tempo e com este assunto pairando, ganhei e encontrei alguns ninhos de pássaros. Observando cada um deles, percebendo sua arquitetura – objetiva porém orgânica, pelo entremeado de galhos e o aconchego para a vida – resolvi metalizá-los e assim mantê-los na sua essência. A metalização é um processo que configura uma espécie de banho, no qual uma capa de metal encobre, encapa, o objeto.

A série ‘Porninho’ consiste em três trabalhos: nos vidros, o corte a laser recria a geometria planar destes ninhos que se apoiam para se tornar um quando dependem para se formar, pois ficam pendurados, encaixados no vidro, e ainda encostados na parede, conversam com a arquitetura.

Ninho, corte geométrico, superfície plana, o vidro, o ninho… São três tipos de ninhos: um bem estranho que meu pai trouxe do Pantanal; outro deve ser de sabiá que encontrei caído; e outro menorzinho, que deve ser de beija flor, não sei. Colecionei por algum tempo. Metalizados e sendo tão frágeis, resolvi eternizá-los nestes trabalhos.

Na série ‘Vistaña’ – nome em homenagem a um vinho delicioso – este assunto ainda estava me intrigando… Então surgiram os pássaros taxidermizados, encaixados em cortes a laser no vidro. São trajetórias no formato de parte de sólidos geométricos, em que o pássaro incrustado completa o desenho gráfico, incluindo aí a sombra criada pelo corte no vidro e a luz que é projetada na parede também. Este contraponto, esta contradição, me interessa. Este não-óbvio, a esquisitice, me chamam a atenção: o que a princípio parece desordenado tem uma ordem bem estudada e decantada. Preciso realmente de tempo… As pontas que ficam de um trabalho me mandam para outro. As faltas de explicação precisam estar nos meus trabalhos em geral e é assim”.

“Vouindo”, 2016, acrílico couro e chumbo, 22 x 28 x 3 cm

“Vouindo” é um livro-objeto que parte do princípio de transformar o livro, tradicionalmente bidimensional, em um conjunto de espaços. São situações/ esculturas de placas de acrílico, com pássaros modelados em chumbo, que ficam desmontadas em uma caixa, para serem abertas e montadas. São pequenas esculturas que apontam para espaços internos, criando arquiteturas, maquetes de esculturas, onde movimento e pausa se combinam, onde o imaterial do trajeto de vôo do pássaro assume o desenho geométrico do acrílico. Minha produção lida constantemente com questões escultóricas. São combinações de matérias dispares, que parecem não combinar, e que a partir da minha ação como artista, passam a conviver, mesmo que de maneira forçada, criando uma relação de instabilidade e efemeridade. No livro, o material leve de acrílico, funciona como direcionamento e movimento de projetos de vôos dos pássaros de chumbo modelados a mão. O material leve, que apresenta esse esquema de vôo, precisa sustentar a peça pesada. Assim a manufatura da modelagem, entra em embate com o acabamento industrial do acrílico, em uma espécie de livro/jogo de montar que se converte em uma maquete/escultura”. – Ana Paula Oliveira

VÍDEOS

Vídeo produzido pela Matrioska Filmes com exclusividade para o PIPA 2010

Para saber mais sobre
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