Exposições

“Em profundidade: campos minados”

(maio –julho 2019)

Fotografar o que não se vê. Desde seu projeto em Chernobyl, a vencedora do Prêmio PIPA 2014 Alice Miceli investiga lugares tomados por um perigo invisível e busca encontrar visibilidade para isso que, apesar de não ser visto, é uma ameaça concreta. Em “Projeto Chernobyl”, a ameaça da radiação pairava sobre todas as coisas, já em “Campo Minados”, está abaixo do solo. A viagem a Angola, comissionada pelo Instituto PIPA, foi o último destino de Alice para a série “Em Profundidade: Campos Minados”, composta também por fotos tiradas em campos minados no Camboja, na Colômbia e na Bósnia. A série completa, adquirida pelo Instituto PIPA, é apresentada pela primeira vez na Villa Aymoré e fica em exposição até o dia 13 de julho.

Numa vista desatenta, as imagens podem parecer todas iguais, mas, se olhadas com cuidado, revelam uma tensão iminente. Os deslocamentos sutis de enquadramento desenham o trajeto do corpo no espaço, onde “em cada centímetro desse terreno pode haver o último instante de alguém”, nas palavras da artista. Aqui, Alice explora territórios que passaram por conflitos sangrentos e que seguem matando mesmo depois de declarada a paz.

“Esta série me parece ser sobre isso – sobre a memória velada da guerra, sobre a obstinação com o território instransponível, sobre o temor de se movimentar que fica como resíduo (concreto e inconsciente) de uma guerra acabada, mas que não termina nunca”. É assim que o curador do Instituto PIPA Luiz Camillo Osorio, que também assina a curadoria de “Em Profundidade: Campos Minados”, descreve a individual de Alice Miceli.

Série de Angola – vista panorâmica da exposição

A exposição trouxe ainda outros materiais complementares, como uma linha do tempo dos lugares fotografados pela artista (clique aqui para ver o timeline) e uma foto do Robert Capa junto de um depoimento da artista (a imagem foi um dos pontos de partida para o desenvolvimento do trabalho).

Timeline dos conflitos e mapa dos campos minados

Alice também dividiu com o público um esquema de cálculos da profundidade de campo – estudo que a artista fez para realizar a série. Confira abaixo:

“Diagrama relacionando distâncias focais, pontos de vista e o tamanho de ampliação na imagem. A distância focal de uma lente determina seu ângulo de visão e, portanto, o quanto o objeto será ampliado para uma determinada posição. As lentes grande angulares têm comprimentos focais curtos, as lentes telefoto têm lentes mais longas. A grande angular pode indicar proximidade com o objeto, enquanto a telefoto pode ser feita à distância. Vemos aqui comprimentos focais diferentes (cada um é uma cor) em pontos de vista sucessivos, dispostos no espaço, a fim de manter sempre o assunto em um tamanho de ampliação constante na imagem.” – Alice Miceli

No dia a abertura, 18 de maio, estava também disponível para distribuição uma zine com uma entrevista entre o diretor artístico da Luhring Augustine Gallery (New York) e Alice Miceli. Clique aqui para ler a zine.

Leia abaixo, na íntegra, o texto curatorial da exposição, escrito por Luiz Camillo Osorio:

Imagens do que não se mostra: o sublime subterrâneo

A série Em Profundidade: Campos Minados de Alice Miceli, um projeto que foi sendo realizado ao longo dos últimos anos, explicita um aspecto fundamental de sua poética: a combinação entre política, imagem e experimentação fotográfica. Ela vai explorar territórios que passaram por conflitos sangrentos e que seguem matando mesmo depois de declarada a paz. As minas subterrâneas continuam explodindo ali. Organizações internacionais trabalham na direção de desarmá-las. Como chegar lá, como explicar a relevância do seu projeto artístico e como trabalhar a imagem para que não seja mera ilustração de uma causa ou questão. Sabendo do andamento deste projeto, o Instituto PIPA comissionou em 2018 a última etapa da série em Angola e adquiriu as que restavam para tê-la completa em sua coleção.  

Não há drama nas imagens, são paisagens banais e intrigantes. Se passar rápido não vai ver nada. Aí sempre mora o perigo. Essa série dos campos minados desdobra uma interrogação que já era muito cara ao seu projeto anterior sobre Chernobyl – encontrar alguma visibilidade para o que nos ameaça concretamente e não é perceptível pelo olho (nem pela câmera). Como transformar em imagem essa invisibilidade? Ir atrás desta imagem velada implica saber que há um deslocamento constante entre o que vemos e o que sabemos, que nem tudo que sabemos pode ser visualizável e que imaginar e procurar dar imagem àquilo que se esconde é uma tarefa da experimentação em arte.

Há toda uma pesquisa e uma vivência nestes campos minados que perpassam o ato fotográfico. Vários estudos são feitos no processo. Achamos importante trazer para as vitrines estas etapas preliminares, revelando sem qualquer didatismo, sem querer dar a chave de um enigma, o cotidiano do seu trabalho artístico. As imagens são de uma paisagem corriqueira, há marcações e um certo suspense. Tudo está prestes a acontecer, para o bem e para o mal. O estranho e o familiar estão diante do nosso olhar.  

Esta série me parece ser sobre isso – sobre a memória velada da guerra, sobre a obstinação com o território instransponível, sobre o temor de se movimentar que fica como resíduo (concreto e inconsciente) de uma guerra acabada, mas que não termina nunca. Mais que tudo, o que sobressai nestes campos minados é um caminhar onde há riscos, que transforma a hesitação da fotógrafa em ação, na hesitação intrínseca do olhar do espectador, que vê uma imagem sempre igual e sempre diferente, ao mesmo tempo recuando e se aproximando. Percorrer estas quatro séries é conhecer um pouco mais a história geopolítica do mundo contemporâneo, perceber as margens dos conflitos, seus resíduos perigosos e subterrâneos, os embates da arte, da imagem artística, em mostrar, deslocar, participar, transformar, recuar, esvaziar sentidos dados, frustrar-se por poder pouco, encantar por querer tanto, deixar ver o que é (e não vemos).